É consenso entre especialistas em recrutamento que a área de
tecnologia da informação (TI) no Brasil tem sido a menos afetada com a
crise mundial. Enquanto parte da indústria ainda demite e o setor
financeiro tenta se recuperar do grande tombo, as empresas de TI
continuam as contratações a todo vapor.
De acordo com levantamento feito pela Computerworld
entre as empresas entrevistadas, há quase de 1,5 mil oportunidades
abertas, a maioria em São Paulo. Mesmo com o congelamento ou adiamento
de projetos, sobram ainda muitas vagas no mercado, que ainda é refém da
defasagem na oferta de profissionais qualificados.
Dados da Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da
Informação e Comunicação (Brasscom) mostram que o déficit de
mão-de-obra na área chega a 100 mil pessoas. Ou seja, enquanto o número
de vagas oferecidas pelas companhias em 2008 cresceu 6,5%, a oferta de
profissionais não ultrapassou a casa dos 4%.
“Diferentemente de outros mercados, o setor de TI não só viu a crise
passar longe como vem ajudando as organizações a melhorar processos e
reduzir custos”, afirma o diretor da Brasscom, Sérgio Sgobbi.
É por essa razão, diz o executivo, que houve um ritmo forte de
contratações nos últimos dois meses, algo impulsionado também pelo
aumento do volume de exportação de software e serviços, estimado em 2
bilhões de dólares em 2009.
Segundo o gerente da divisão de tecnologia da empresa de seleção de
executivos Michael Page, Ricardo Basaglia, os empregos concentram-se
nas consultorias e na própria indústria de TI, que luta para driblar a
falta de profissionais com boa formação e experiência.
“Entre as posições de maior demanda estão a de desenvolvedor em
linguagem Java, a de especialistas em sistema de gestão SAP, a de
administradores de banco de dados e a de gerentes de projetos”, diz.
Quem divide a mesma opinião é o consultor da empresa de recrutamento
Robert Half, Robert Andrade. “A grande procura tem sido por
especialistas em sistemas integrados (SAP, Datasul e Microsiga) e
desenvolvedores nas linguagens de programação Java e .Net”, destaca.
De olho na enorme demanda do mercado de sistemas de gestão, o
paulistano Roberto Taveira Junior, 46 anos, decidiu enveredar na área
de ERP há três anos. Participou de vários projetos de implantação, de
diversos fabricantes – como Baan, Datasul e SAP - até que em junho
passado deu um novo salto.
Deixou a indústria para seguir carreira no ramo de consultoria.
Aceitou o convite da Tata Consulting Services (TCS), braço de
tecnologia da indiana Tata, para assumir o cargo de gerente de projetos
SAP.
“Crise, que crise?”, questiona Taveira Junior ao afirmar que
oportunidades continuam a aparecer. “Os especialistas em ERP são muito
disputados porque não há recursos humanos suficientes para atender à
quantidade de projetos que surgem”, diz.
Com uma vasta experiência em TI adquirida ao longo de uma trajetória
profissional de 25 anos, Taveira confessa que nunca teve problemas para
encontrar emprego. Muito pelo contrário. As oportunidades, aliás,
sempre caíram em suas mãos, diz. “O momento de crise, inclusive, abre
portas para a tecnologia servir como base às organizações na busca por
redução de custos”.
Onde estão as oportunidades
Na CPM Braxis,
empresa brasileira de serviços em tecnologia da informação, o que não
faltam são vagas. Há no momento 385 posições em aberto, envolvendo
todos os níveis, de estagiário a gerente. Grande parte das
oportunidades, no entanto, é destinada a profissionais novatos.
“Nossa estratégia é permitir que as pessoas possam construir a
carreira aqui dentro”, afirma o gerente de recursos humanos da
companhia, Alexandre Ullmann. “Preferimos treinar profissionais menos
experientes, que podem ser promovidos assim que surgirem oportunidades
de nível sênior.”
Entre as vagas disponíveis, o executivo explica que o maior número de
posições destina-se a desenvolvedores e programadores Java, analistas e
técnicos de mainframe e analistas de banco de dados.
Funções que exigem conhecimento específico das tecnologias, o que
acaba se refletindo na quantidade de vagas não preenchidas. “É aquele
velho problema da escassez de profissionais, enquanto a demanda por
projetos cresce em ritmo acelerado”, avalia Ullmann.
Para Cesar Castelli, presidente da TCS do Brasil, o gargalo existe
quando há necessidade de encontrar gente altamente especializada.
Cenário que contribui para a dificuldade de preencher posições.
O executivo destaca que no topo da pirâmide, ou seja, em cargos mais
seniores, a falta de profissionais é bem mais visível. Isso porque a
proporção de quem ocupa postos executivos em relação à base da pirâmide
é bem menor.
Mas assim como acontece com seus concorrentes, o desafio da TCS está
em encontrar talentos para a base , setor que, por razões óbvias,
oferece um volume maior de vagas. “A rotatividade é grande nesse nível.
Quem está no início da carreira é facilmente atraído por outras
propostas”, afirma Castelli.
Esse fator intensifica o déficit de profissionais. Se é complicado
encontrar jovens com boa qualificação, mais difícil ainda é retê-los.
Hoje com um universo de 85 vagas, a TCS prevê a criação de mais 200 até
o fim do ano fiscal da companhia, em março de 2010.
Desse total, uma fatia considerável é destinada aos especialistas em
sistemas de gestão (ERP) e de inteligência de negócios - setor também
conhecido no mercado como Business Intelligence (BI). Quando a
companhia não encontra os profissionais, acaba optando pela formação
interna. “Procuramos treinar quem ainda não está pronto e evitar um
apagão de mão-de-obra em médio e longo prazos”, conta Castelli.
Outro celeiro de vagas é a gigante IBM. A subsidiária brasileira tem
tido, em média, cerca de 300 posições em aberto desde o ano passado.
Muitos postos ficam meses “sem dono”, situação que se agrava pela
ausência de profissionais com inglês fluente. Entre as funções mais
procuradas destacam-se as de programadores Cobol, programadores Java,
especialistas em banco de dados e de rede, operadores e analistas de
mainframe e operadores de sistemas Unix.
Seguindo o mesmo rumo de suas concorrentes, a IBM também centra foco
na contratação de pessoas com menos experiência, o que não significa
que os mais experientes sejam carta fora do baralho. Pelo contrário:
esses profissionais ficam em cargos de liderança, com a missão de
supervisionar a turma nova que ingressa no grupo.
Portas abertas
Enquanto para a maioria das
empresas de TI a dificuldade em preencher as vagas por falta de
profissionais é recorrente, na fornecedora de sistemas de gestão Totvs
o problema é pontual. Atualmente, há 300 oportunidades em várias
unidades da companhia espalhadas pelo País.
Todas são destinadas a projetos que envolvem as etapas de
implantação de software, serviços de consultoria e desenvolvimento. De
acordo com a diretora de relações humanas da empresa, Maria de Fátima
Albuquerque, nenhuma das posições deixa de ser preenchida. “Não
passamos muito tempo com vagas em aberto”, diz.
Só no ano passado, ela estima que foram contratados entre 570 e 600
pessoas. “O que existe é um volume alto de projetos demandando
profissionais”, explica. Ciclo que se repete assim que novos projetos
são definidos.
Maria de Fátima afirma que as posições que exigem maior número de
contratações são as de consultor de negócios, consultor de implantação
de software e desenvolvedores para a fábrica de Joinville (SC).
Na Siemens IT Solutions and Services, divisão de serviços em
tecnologia da informação, a abertura de vagas está diretamente ligada
ao fechamento de projetos. Prova disso é que, atualmente, 100 posições
foram criadas após ser firmado contrato de terceirização com uma
montadora.
Estão sendo selecionados consultores SAP, consultores de banco de
dados, profissionais de redes, de segurança e atendente de suporte
técnico.
Fonte: IDG Now